CHRISTIAAN OYENS: MESES DE TÉDIO

Sunday, February 20, 2011

MESES DE TÉDIO

Chega de poluição e de ouvir as sombras armênias
falarem sobre estátuas de veludo nos corredores
das selvas com mata seca e arvores flácidas com sede
de algo amargo e destilado
como os pêssegos banhados em sangue estancado
pelas nuvens em vinho de cereja incineradas por um sol
de cera colado em placas de gesso por
crianças em crise de angústia e cólera
penteadas no asfalto noturno em curto circuito
por óleos e gansos e peras e alarmes que desafinam
de um velho chapéu cigano mofado
por canos infiltrados nas pontes de todos os dias
com morros e dilúvios de corpos suando nas praias
e campos neutros de anjos e santos de estanho
amarelo, cinza e prata, cores que castigaram
os sonhos obsessivos de Salvador Dalí

abacaxis de fibra, maçãs e bananas de papel maché
flores de plástico, feijão de goma e casas em aquarela,
este é o novo sentido do mundo. São as estações de apego
que tremulam com as persianas ao vento
freando a tarde dos frades que solfejam os
lamentos insolúveis dos pecados abstêmios, supérfluos,
desencantados e alheios. Tudo faz sentido
se você morre cedo e for cremado
sem pompa por bêbados que se dizem coveiros.
Folhas em poliéster e brisas
de lavanda e um frasco de purgante na sala do
alfaiate, balas de festim, luas de cerâmica
nos espelhos de todos os lavabos,
copos de plástico e o gás banido dos refrigerantes
antigos, vencidos pela insuficiência química que lhes dá cor
e sabor, mas nunca longevidade. Estrelas sem ponta e padres
sem batina, guardas sem munição e ternos sem costura
e cartas sem destino,
pois o correio é um mal ultrapassado
como a gonorréia ou o sífilis.

Chega de poluição surda e enxergar as tramas dos cometas
em vôos deslizantes sem vaselina entre satélites
e escopetas armadas até os dentes noturnos feitos de lã
e marfim extraídos das pulseiras dos bufões deprimidos
e cantoras decadentes que ao se olharem no espelho
só vêem morangos silvestres, sandálias romanas
e ferrugem de canivete. Pássaros planam seguros
que nada disso vale a pena, que o mundo é um triturador
clandestino sem luz própria ou fuligem. Os arqueiros
estão com vergonha e as enfermeiras estão de resguardo,
o almirante é um velho insone que só navega por saladas de frutas.
Pasteis de celofane e uvas de vidro, luvas de borracha
e esculturas de farinha, está é a nova razão da vida.
São os meses de tédio e as pensões invadidas. Bombeiros asmáticos
feitos em argila, viúvas falidas e madrinhas órfãs, beijos nefastos,
assaltos em igrejas, pântanos com mandalas de pedra e iodo.
Chega de poluição.
O mundo será sepultado na via láctea.
Que ele eternamente descanse.

1 Comments:

Blogger Maria Elisa said...

WOW! Poesia concreta pura.Quanto mais te conheço,mais admiro seu talento.

9:07 AM  

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